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Covid-19: Putin anuncia que Rússia é o 1º país a registrar vacina contra o novo coronavírus

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O presidente russo, Vladimir Putin, anunciou nesta terça-feira (11) que a Rússia é o primeiro país do mundo a registrar uma vacina contra o novo coronavírus. Apesar do anúncio, sabe-se pouco sobre a eficácia dessa vacina, e ela vem sendo questionada por especialistas internacionais.

A Rússia também anunciou que o Brasil deve participar da próxima fase dos testes da imunização, prevista para começar na quarta-feira (12).

Segundo a atualização mais recente da Organização Mundial de Saúde (OMS), do dia 31 de julho, sobre as vacinas para Covid-19 em desenvolvimento no mundo, a vacina russa ainda estava na fase 1 do processo. Para desenvolver uma imunização, são necessárias 3 etapas.

Nesta terça (11), a OMS comentou o anúncio da vacina russa. A entidade declarou que a Rússia "não precisa de sua aprovação" para registrar a vacina, e que precisará ter acesso aos dados da pesquisa para avaliar a eficácia e segurança da imunização para aprová-la.

Ao todo, 165 vacinas contra a Covid-19 estão sendo pesquisadas em todo o mundo, segundo os dados da organização no dia 31 de julho. Cinco dessas imunizações estão na fase final de testes em humanos (a fase 3).

A imunização russa se chamará Sputnik V, em alusão à corrida espacial da Guerra Fria entre União Soviética e Estados Unidos. O Sputnik I foi o primeiro satélite a orbitar a Terra, lançado pelos soviéticos em 1957.

 

 

 

Parceria com o Brasil

Nesta terça (11), o governo do Paraná anunciou que vai assinar, na quarta (12), um acordo para fabricar a imunização russa. A produção, entretanto, não tem previsão de início, pois depende de aprovação da Anvisa.

No dia 24 de julho, o governo do estado já havia anunciado que estudava uma parceria com a Rússia para fabricação da vacina.

Questionada pelo G1 sobre a produção da imunização, a Fiocruz respondeu que "o acordo com o instituto russo para a produção da vacina será feito com o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), conforme pronunciamento do diretor do instituto nesta manhã".

A Fiocruz tem um acordo de parceria com a farmacêutica AstraZeneca, no Reino Unido, para transferência de tecnologia, para o Brasil, da produção da vacina testada pela Universidade de Oxford.

Segundo o site da nova vacina, o Brasil irá participar da fase 3 dos estudos clínicos, que tem previsão para começar na quarta-feira (12). Serão 2 mil participantes; além dos brasileiros, deve haver voluntários da própria Rússia, dos Emirados Árabes, da Arábia Saudita e do México.

O G1 questionou, por volta das 10h desta terça-feira (11), o Ministério da Saúde sobre a participação brasileira nos testes, mas, até a última atualização desta reportagem, ainda não havia obtido resposta.

A produção em massa da vacina em território russo tem previsão para começar em setembro.

 

O que se sabe sobre a vacina russa?

A imunização foi desenvolvida pelo Centro Nacional de Investigação de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya junto ao Ministério da Defesa.

Segundo o site da vacina, a imunização foi testada em animais antes de ser aplicada em humanos – incluindo em dois tipos de primatas. A Rússia não publicou, entretanto, nenhum estudo científico sobre os testes que realizou.

Os testes em humanos começaram em 18 de junho, quando o primeiro grupo, de 18 voluntários, recebeu a imunização em sua forma liofilizada (a liofilização é uma espécie de "desidratação da vacina", que estabiliza a molécula). Cinco dias depois, no dia 23, mais 20 pessoas receberam a dose, também deste tipo.

Segundo os detalhes disponíveis on-line sobre os testes com a vacina (na versão liofilizada e líquida), os primeiros 18 voluntários da forma liofilizada foram divididos em dois grupos de 9 pessoas. Cada um dos grupos recebeu uma única dose da vacina; a diferença entre eles era o adenovírus que servia de "transporte" para a proteína do novo coronavírus (veja explicação mais abaixo). Essa etapa correspondeu à fase 1 dos experimentos.

A fase 2 foi a dos 20 voluntários, que começou os testes no dia 23 de junho. Essas pessoas receberam, além da primeira dose, um reforço, previsto para 21 dias após a primeira dose. Diferente dos 18 primeiros, todos os 20 voluntários da fase 2 receberam ambas as vacinas (cada uma com um tipo de adenovírus).

Em julho, a Rússia anunciou que a vacina induziu produção de anticorpos na primeira fase de testes. No mesmo mês, a Universidade Sechenov, em Moscou, informou que outra versão da mesma vacina, em forma líquida, estava sendo testada em outros 38 voluntários em um hospital militar da capital russa. Os voluntários foram divididos da mesma forma que os da vacina liofilizada.

Os testes de fase 1 e 2 foram completados no dia 1º de agosto, diz o site oficial da vacinação.

"Nenhum participante dos atuais ensaios clínicos foi infectado com Covid-19 após ter a vacina administrada", diz o site.

"A alta eficácia da vacina foi confirmada por testes de alta precisão para anticorpos no soro sanguíneo de voluntários (incluindo uma análise para anticorpos que neutralizam o coronavírus), bem como a capacidade das células imunes dos voluntários se ativarem em resposta à proteína S do coronavírus, que indica a formação de anticorpos e resposta imune celular", afirma o texto.

Felix Ershov, membro da Academia Russa de Ciências, afirmou que a vacina é segura e eficaz.

"Mas está garantida a produção dos anticorpos necessários à proteção do organismo, o que é demonstrado não só nos resultados dos testes, mas também na utilização de outras vacinas deste tipo", acrescentou Ershov.

"Esta vacina não é integral como acontecia com as vacinas anteriores (vírus vivo ou inativado). Ela foi projetada com biotecnologia avançada", completou.

O vice-diretor de Anestesiologia e Reanimação do Hospital nº 52 de Moscou, Sergey Tsarenko, comparou o mecanismo de funcionamento da vacina ao lançamento de uma nave espacial.

"Depois disso, a imunidade é desenvolvida tanto para o 'veículo lançador' quanto para a 'estação orbital'. Em seguida, três semanas depois, a mesma 'estação orbital' é lançada em outro 'veículo de lançamento', isto é, um adenovírus diferente", explicou Tsarenko.

"Várias outras vacinas vetoriais estão sendo criadas em todo o mundo, mas até agora ninguém considerou a possibilidade de usar dois 'veículos de lançamento' para atingir esse objetivo. Além disso, os primeiros testadores foram funcionários do Instituto Gamaleya", acrescentou.

"Em seguida, a vacina foi testada em outros voluntários. Não houve uma única complicação e todos os participantes exibiram uma poderosa resposta imunológica", disse Tsarenko.

O presidente russo, Vladimir Putin, disse que a vacina russa é "eficaz", passou em todos os testes necessários e permite obter uma "imunidade estável" contra a Covid-19.

As agências internacionais informam ainda que o presidente russo afirmou que uma de suas filhas já tomou a vacina. Suas filhas são Maria, de 35 anos, e Ekaterina, 34, mas não há informação sobre qual delas tomou a vacina.

 

 

OMS reforçou importância das 3 fases

Na segunda-feira (10), a OMS alertou que, apesar de haver várias vacinas na fase final de testes, a eficácia delas ainda precisa ser demonstrada, e que, provavelmente, não haverá uma "solução imediata".

 

Vacinação na Rússia

Segundo indicou o Ministério da Saúde, após o registro e a produção, a vacinação deve começar em outubro de forma gratuita. Inicialmente, de acordo com as autoridades sanitárias, serão vacinados grupos especiais da população: médicos, professores e aqueles que estão constantemente em contato com grandes grupos de pessoas.

Nesta segunda-feira (10), em entrevista à Itar-Tass, o ministro da Indústria e Comércio, Denis Manturov, indicou que no próximo mês três empresas russas vão começar a produção comercial.

 

FONTE G1


Comentários

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CARLOS ALBERTO RUCHAUD
11 Ago 2020
Deixando de lado as considerações políticas, estou de acordo com a decisão russa. Uma vez que dezenas de humanos foram expostos à vacina e desenvolveram imunidade laboratorial sem a ocorrência de eventos adversos graves, não faz sentido o rigor acadêmico e regulatório geralmente aplicado - corretamente, diga-se - à aprovação de medicamentos novos. A pandemia atual, claramente uma situação excepcional, mata milhares de pessoas a cada dia. Esperar mais um ano para satisfazer os atuais critérios acadêmicos e regulatórios para liberar a vacinação em massa seria condenar mais de 300 mil pessoas à morte (e sabe-se lá quantos milhões mais a dificuldades econômicas) por puro preciosismo, levando-se em conta os dados ainda mais robustos já gerados pelas pesquisas de outras vacinas também em desenvolvimento. Não seria o momento de considerar medidas excepcionais para uma situação excepcional? Fica novamente o convite à reflexão, já manifestado anteriormente aqui mesmo.